O que é a hipoglicemia e como reconhecê-la

Fontes verificadas Atualizado: 7 de setembro de 2026 13 min de leitura

A hipoglicemia é uma descida do nível da glicemia abaixo do valor de 70 mg/dL (3,9 mmol/L). No contexto da DM tipo 1, é secundária ao tratamento com insulina.

abaixo de 70 mg/dL
o limiar que define a hipoglicemia
abaixo de 54 mg/dL
torna-se clinicamente significativa
precisas de outra pessoa
o critério da hipoglicemia grave

O que é a hipoglicemia?

A hipoglicemia é uma glicemia demasiado baixa para aquilo de que o corpo precisa. Na DM tipo 1 considera-se hipoglicemia qualquer valor abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) [1]. Não é uma doença à parte, mas um efeito indesejado do tratamento com insulina. Surge quando a insulina presente no organismo ultrapassa a necessidade do momento.

O organismo funciona com um nível de glicose bastante estável, porque o cérebro depende quase por completo dela. Quando a glicemia desce, o corpo desencadeia um alarme (hormonal e neurológico) e tu sentes os primeiros sinais. A hipoglicemia trata-se de imediato, com hidratos de carbono de absorção rápida [1]. É a situação da diabetes em que tens de agir mais depressa, como mostra a figura abaixo.

Figura 1

Os limiares da hipoglicemia, de cima para baixo

  1. Sem hipoglicemia70 mg/dL (3,9 mmol/L) ou acimaA zona habitual entre as refeições. Não precisas de tratar uma hipoglicemia.
  2. Nível 154–69 mg/dL (3,0–3,8 mmol/L)Valor de alerta. A partir daqui o corpo começa a reagir. Tratas agora, para não desceres mais.
  3. Nível 2Abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L)Hipoglicemia clinicamente importante. Exige tratamento imediato.
  4. Nível 3Grave, com qualquer valor de glicemiaPrecisas da ajuda de outra pessoa. A definição não assenta num número, mas no facto de já não conseguires tratar-te sozinho.
Os limiares da hipoglicemia tal como estão definidos internacionalmente [1]. O nível 1 não quer dizer que já estás em perigo, mas que tens de agir. O nível 3 não tem limiar numérico, porque se define pela necessidade de ajuda de outra pessoa e não pelo valor no aparelho. Umas pessoas sentem a descida mais cedo, outras mais tarde, e os episódios repetidos das últimas semanas tornam os sintomas mais difíceis de reconhecer.

A partir de que valor da glicemia começa a hipoglicemia?

O limiar é 70 mg/dL (3,9 mmol/L). Abaixo deste valor falamos de hipoglicemia, sintas ou não alguma coisa. O número não foi escolhido ao acaso, porque é aproximadamente neste valor que o organismo de uma pessoa sem diabetes começa a libertar hormonas de defesa, sobretudo glucagon e adrenalina [1].

Este limiar é um valor de alerta, não um valor de perigo. Avisa-te de que tens de agir agora, para não chegares mais abaixo. A 68 mg/dL (3,8 mmol/L) o cérebro tem ainda glicose suficiente. Os problemas surgem mais abaixo, e a função do limiar é travar-te antes de lá chegares [1].

Quais são os níveis de gravidade da hipoglicemia?

São três. O nível 1 é uma glicemia entre 54 e 69 mg/dL (3,0–3,8 mmol/L). O nível 2 é uma glicemia abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L). O nível 3 é a hipoglicemia grave, definida pela necessidade de ajuda de outra pessoa [1].

Esta classificação é usada da mesma forma em todo o mundo, o que ajuda quando comparas os teus resultados ou falas com outro médico. Os dois primeiros níveis definem-se por um número, o terceiro por aquilo que te acontece. Por isso uma hipoglicemia grave pode surgir com um valor que, no papel, parece de nível 1.

O que significa hipoglicemia clinicamente importante?

É o nome dado ao nível 2, ou seja, a uma glicemia abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L). A partir deste valor o cérebro começa a receber glicose a menos, e os sinais deixam de ser apenas de alarme. Podem surgir a dificuldade de concentração, a visão turva ou a fala arrastada. É o momento em que a correção da hipoglicemia já não admite adiamento [1].

Um episódio de nível 2 não se ignora, nem sequer depois de corrigido. Um ou mais episódios deste tipo exigem uma conversa com o médico sobre as doses de insulina e sobre a organização do dia [1]. Se desceres abaixo deste limiar sem sentires nada, a informação é ainda mais importante. Costuma significar que perdeste os sinais de aviso do organismo.

Como se sente uma hipoglicemia?

Os primeiros sinais vêm do sistema nervoso simpático: tremores, suores frios, palpitações, fome súbita e intensa, nervosismo. São sinais úteis, porque surgem antes de a atividade do cérebro ser afetada.

Se a glicemia descer mais, aparecem os sinais que vêm do cérebro: dificuldade de concentração, visão turva, fala arrastada, irritabilidade, sonolência. Neste nível já te é difícil ajudares-te sozinho, por isso o tratamento não deve ser adiado [1].

Uma glicemia baixa sem sintomas também é hipoglicemia?

Sim. A definição assenta no valor medido, não naquilo que sentes. Uma glicemia abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) conta também quando te sentes perfeitamente bem [1]. A razão é que muitos doentes com diabetes têm uma resposta de defesa enfraquecida, por isso a ausência de sintomas não significa ausência de risco.

A situação merece atenção sobretudo abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L). Um valor tão baixo sem qualquer sintoma é um sinal de não perceção da hipoglicemia. Não mostra que te tenhas tornado resistente a valores baixos. Mostra que o teu sistema de alarme já não arranca a tempo.

O que é a hipoglicemia relativa?

É a situação em que tens todos os sinais de uma hipoglicemia, mas a glicemia medida é normal. Surge em doentes com diabetes habituados a valores altos, quando a glicemia desce depressa para valores normais. O corpo adaptou-se aos valores altos e trata 120 mg/dL (6,7 mmol/L) como uma descida perigosa. Os sintomas são reais, não imaginários.

O tratamento com glicose não é a solução, porque a glicemia já está onde deve estar, e a hipoglicemia define-se pelo valor medido [1]. Mede, ainda assim, de cada vez antes de decidires, e se os sintomas piorarem repete a glicemia com o glicómetro. Se comeres de cada vez que te sentes assim, ficas preso em valores altos. O limiar de alarme do organismo desce sozinho ao fim de algumas semanas, à medida que a média glicémica baixa. É uma fase passageira no início de um tratamento melhor.

Porque surge a hipoglicemia na diabetes tipo 1?

A causa é sempre um desequilíbrio entre a insulina disponível no organismo e a necessidade do momento. Na maioria das vezes trata-se de uma dose de insulina demasiado alta, de uma refeição adiada ou mais pequena do que estimaste, ou de uma correção administrada demasiado perto da anterior. Se as hipoglicemias se repetirem sem explicação nas doses, nas refeições ou no exercício, o médico procura uma causa acrescentada, como a doença celíaca, a insuficiência suprarrenal ou a afeção renal.

O exercício físico aumenta a sensibilidade à insulina e pode baixar a glicemia mesmo várias horas depois do treino [2]. O álcool bloqueia a produção de glicose nova no fígado, por isso pode aumentar o risco de hipoglicemia durante 24 horas [3]. O risco é maior quando as reservas do fígado já estão vazias, ou seja, com o estômago vazio ou depois de exercício.

A hipoglicemia também surge em quem não tem diabetes?

Sim, mas raramente. Numa pessoa sem diabetes existem três mecanismos de segurança que travam quase sempre a descida descontrolada da glicemia. O primeiro é a paragem da secreção própria de insulina. O segundo é a libertação de glucagon, a hormona que retira glicose do fígado. O terceiro é a adrenalina, que entra em ação quando os dois primeiros não chegam. Em conjunto, estes mecanismos mantêm a glicemia acima do limiar de risco em condições habituais.

Na DM tipo 1 nenhum destes três mecanismos funciona já da mesma forma. A insulina administrada faz o seu efeito qualquer que seja o valor da glicemia. A resposta do glucagon perde-se nos primeiros anos da doença, e a da adrenalina enfraquece depois de episódios repetidos [1]. É aqui que está a diferença de fundo. Não és mais frágil do que os outros, perdeste mecanismos de proteção que eles usam sem saber.

O que significa hipoglicemia grave?

A hipoglicemia é grave (nível 3) quando precisas de outra pessoa para te ajudar. Os sintomas são mais avançados e consistem em confusão marcada, incapacidade de engolir, convulsões e perda de consciência. A definição não se refere a um valor concreto da glicemia, mas ao facto de já não conseguires tratar-te sozinho [1]. Uma glicemia de 40 mg/dL (2,2 mmol/L) que trataste sozinho não é uma hipoglicemia grave. Uma de 60 mg/dL (3,3 mmol/L) em que precisaste de ajuda é.

Se o doente perdeu a consciência, não se dá nada pela boca, porque a comida ou o líquido podem chegar aos pulmões. Administra-se glucagon (nasal ou injetável) e chama-se imediatamente o serviço de urgência. Na DM tipo 1, o risco de hipoglicemia grave estará presente para o resto da vida, por isso vale a pena teres sempre à mão hidratos de carbono rápidos e um plano para as emergências [4].

O limiar da hipoglicemia é o mesmo em todas as idades?

Sim, o limiar de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) é o mesmo para a criança, o adolescente e o adulto. A fisiologia não muda com a idade. O que difere é a capacidade de reconhecer o episódio e de reagir a tempo [1].

Nas crianças com menos de 6 anos o problema não é o limiar, mas a comunicação. Uma criança pequena não diz que tem uma hipoglicemia e muitas vezes nem sequer reconhece a sensação. Por isso, nesta idade, conta muito aquilo que os adultos à volta observam e a vigilância com um sensor de glicose. Os objetivos glicémicos escolhem-se de forma individual, tendo em conta este risco [1].

O que é a não perceção da hipoglicemia?

Os episódios repetidos de hipoglicemia dos últimos dias ou semanas habituam o organismo aos valores baixos, e ele deixa de desencadear os sinais de aviso. Não precisas de muitos anos de diabetes para isso, porque dois ou três episódios recentes podem chegar. Podes chegar a glicemias muito baixas sem sentir nada, e o primeiro sinal ser diretamente a confusão. É a isto que se chama a não perceção da hipoglicemia [5].

A parte boa é que se pode recuperar. Se evitares cuidadosamente as hipoglicemias durante algumas semanas, o limiar a que surgem os sintomas volta a subir. Este é um dos motivos pelos quais deves falar com a tua equipa médica sobre a introdução de objetivos temporariamente mais folgados [5].

Com que frequência surgem as hipoglicemias?

Os episódios ligeiros fazem parte habitual do tratamento com insulina e surgem na maioria das pessoas, algumas vezes por semana. Resolvem-se sozinhos, com hidratos de carbono rápidos, e não deixam sequelas. A medida que conta não é, porém, o seu número, mas o tempo passado abaixo do limiar, que o sensor te mostra.

Para a maioria dos adultos e crianças com DM tipo 1, o objetivo internacional é menos de 4% do dia abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L), ou seja, cerca de uma hora, e abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L) o objetivo é menos de 1% [1]. Nas pessoas idosas e nas de risco elevado o objetivo é mais estrito, menos de 1% do dia abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L) [1]. Os episódios graves são muito mais raros, mas não desaparecem com a experiência, e o risco mantém-se presente em todas as fases da DM tipo 1 [4]. Por isso é importante saberes de antemão o que fazer, em vez de improvisares no momento.

Porque é diferente a hipoglicemia noturna?

À noite estás a dormir e é-te muito mais difícil sentir os sinais de aviso, por isso um episódio de hipoglicemia pode durar por vezes horas a fio. A hipoglicemia noturna surge sobretudo depois de um dia com mais esforço físico, porque os músculos repõem as suas reservas e captam glicose muito depois do fim do treino [6].

É aqui que os alarmes mais contam. Um sensor que toca antes de a glicemia chegar demasiado baixo transforma um episódio longo num episódio curto. Os alarmes durante a noite apanham realmente os episódios que de outra forma passariam despercebidos [7].

O sensor pode avisar-me em caso de hipoglicemia?

Sim, e esta é uma das funções mais úteis de um sensor de glicose [7]. Se os sintomas não corresponderem ao valor apresentado, confirma com o glicómetro antes de tratares. Tem em conta que o sensor mede a concentração de glicose no líquido entre as células (o líquido intersticial) e fica alguns minutos atrás do sangue.

Os sistemas que suspendem automaticamente a administração de insulina quando preveem uma descida até um objetivo predefinido reduzem ainda mais o número de episódios de hipoglicemia [8]. Os limiares de alarme e as definições estabelecem-se em conjunto com a tua equipa médica, porque um alarme colocado demasiado baixo não te deixa tempo de reação.

Que riscos trazem as hipoglicemias repetidas?

A curto prazo existem os riscos de acidente: quedas, fraturas, situações perigosas ao volante ou no trabalho. A hipoglicemia também pode desencadear perturbações do ritmo cardíaco, sobretudo durante a noite [9].

A longo prazo pode surgir o medo da hipoglicemia, que é infelizmente bastante frequente. Por vezes cedes-lhe e começas a manter a glicemia intencionalmente demasiado alta, a comer a mais e a evitar o esforço físico [10]. As análises sobre as causas de morte em adultos com diabetes mostram que vale a pena prevenir os episódios graves de hipoglicemia, porque por vezes podem ser fatais [11].

Quando peço ajuda médica para uma hipoglicemia?

Chama imediatamente o serviço de urgência se um doente com hipoglicemia não conseguir engolir, não responder ou tiver convulsões. Não lhe dês nada pela boca e administra glucagon, se tiveres à mão. Os passos concretos estão na página sobre o tratamento da hipoglicemia, e as situações que exigem urgência estão listadas no aviso médico.

Contacta a equipa médica no próprio dia se tiveste um episódio grave, se tens episódios repetidos sem explicação ou se reparaste que já não sentes os sinais de aviso. São situações que exigem uma reavaliação do esquema de tratamento, e não uma correção pontual [1].

Conclusões

  • A hipoglicemia começa abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L), e abaixo de 54 mg/dL (3,0 mmol/L) é clinicamente significativa e tem de ser tratada com urgência [1].
  • É grave quando precisas de outra pessoa para a resolver e, nessa situação, pode ser necessário administrar glucagon e chamar o serviço de urgência [1] [4].
  • A não perceção da hipoglicemia pode resolver-se, se os episódios de hipoglicemia forem estritamente evitados durante algumas semanas [5].
  • Os alarmes do sensor e a suspensão automática da insulina são as ferramentas mais eficazes contra os episódios de hipoglicemia noturna [7] [8].

Termos do glossário usados aqui

Referências

  1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 6. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes-2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S132-S149. PubMed
  2. Basu R, Johnson ML, Kudva YC, Basu A. Exercise, Hypoglycemia, and Type 1 Diabetes. Diabetes Technol Ther. 2014;16(6):331-337. PubMed
  3. Tetzschner R, Nørgaard K, Ranjan A. Effects of alcohol on plasma glucose and prevention of alcohol-induced hypoglycemia in type 1 diabetes-A systematic review with GRADE. Diabetes Metab Res Rev. 2018;34(3):e2965. PubMed
  4. Gubitosi-Klug RA, Braffett BH, White NH, et al. Risk of Severe Hypoglycemia in Type 1 Diabetes Over 30 Years of Follow-up in the DCCT/EDIC Study. Diabetes Care. 2017;40(8):1010-1016. PubMed
  5. Lin YK, Ye W, Rogers H, et al. Mitigating Severe Hypoglycemia in Users of Advanced Diabetes Technologies: Impaired Awareness of Hypoglycemia and Unhelpful Hypoglycemia Beliefs as Targets for Interventions. Diabetes Technol Ther. 2024;26(10):739-747. PubMed
  6. Maran A, Pavan P, Bonsembiante B, Brugin E, Ermolao A, Avogaro A, Zaccaria M. Continuous glucose monitoring reveals delayed nocturnal hypoglycemia after intermittent high-intensity exercise in nontrained patients with type 1 diabetes. Diabetes Technol Ther. 2010;12(10):763-768. PubMed
  7. Wang X, Ioacara S, DeHennis A. Long-Term Home Study on Nocturnal Hypoglycemic Alarms Using a New Fully Implantable Continuous Glucose Monitoring System in Type 1 Diabetes. Diabetes Technol Ther. 2015;17(11):780-786. PubMed
  8. Bojoga I, Ioacara S, Malinici E, et al. Enhanced Metabolic Control in a Pediatric Population with Type 1 Diabetes Mellitus Using Hybrid Closed-Loop and Predictive Low-Glucose Suspend Insulin Pump Treatments. Pediatr Rep. 2024;16(4):1188-1199. PubMed
  9. Mavromoustakou K, Fragoulis C, Cholidou K, Sotiropoulou Z, Anagnostopoulos N, Gastouniotis I, Lontou SP, Dimitriadis K, Thanopoulou A, Chrysohoou C, Tsioufis K. Hypoglycaemia and Cardiac Arrhythmias in Type 1 Diabetes Mellitus: A Mechanistic Review. J Pers Med. 2026;16(1):45. PubMed
  10. Peter ME, Rioles N, Liu J, Chapman K, Wolf WA, Nguyen H, Basina M, Akturk HK, Ebekozien O, Perez-Nieves M, Poon JL, Mitchell B. Prevalence of fear of hypoglycemia in adults with type 1 diabetes using a newly developed screener and clinician's perspective on its implementation. BMJ Open Diabetes Res Care. 2023;11(4):e003394. PubMed
  11. Ioacara S, Guja C, Ionescu-Tîrgoviște C, Martin S, Tiu C, Fica S. Rates and Causes of Death among Adult Diabetes Patients in Romania. Endocr Res. 2019;44(3):81-86. PubMed