O que é a monitorização contínua da glicemia (CGM)?
A monitorização contínua da glicemia (CGM) é um método de acompanhamento em tempo real do nível de glucose, usando um pequeno sensor usado sob a pele [1]. O sistema mede a concentração de glucose a cada 1-5 minutos e oferece um gráfico contínuo da evolução, não apenas valores pontuais. Recebes informações sobre o sentido em que se dirige a tua glicemia, não apenas onde está neste momento. Esta tecnologia revolucionou a gestão da diabetes através do acesso a dados relacionados com a glicemia em tempo real.
Ao contrário da automonitorização clássica por picada, o CGM mostra as tendências e padrões escondidos da tua glicemia. Podes ver o que acontece durante a noite enquanto dormes ou como o corpo reage a diferentes alimentos. Os alarmes alertam antes que a glicemia se torne perigosa [2]. As diretrizes atuais recomendam o CGM como padrão de cuidados para todas as pessoas com diabetes tipo 1 e para muitas pessoas com diabetes tipo 2 [1].
Como mede o sensor a glicemia através da pele?
O sensor CGM usa um filamento fino e flexível, de 4-6 mm de comprimento, introduzido no tecido subcutâneo. Na superfície do filamento encontra-se a enzima glucose-oxidase, que reage com as moléculas de glucose do líquido intersticial [3]. A reação química gera uma corrente elétrica pequena, proporcional à concentração de glucose. Um transmissor na pele transforma este sinal elétrico em valores numéricos.
O processo é contínuo e completamente automático, sem a tua intervenção. O sinal elétrico é processado por um algoritmo, que o converte em valores de estimativa da glicemia expressos em mg/dl ou mmol/L [3]. A precisão depende da qualidade da enzima, do algoritmo de conversão e das condições locais do tecido. A tecnologia evoluiu significativamente nos últimos anos, com sensores cada vez mais precisos e fiáveis [1].
Porque mede a glucose intersticial, não sanguínea?
O sensor mede a glucose do líquido intersticial (espaço entre células) porque a colocação de um sensor contínuo diretamente nos vasos sanguíneos seria invasiva e arriscada [4]. O líquido intersticial é acessível através da inserção de um filamento pequeno sob a pele, sem afetar os vasos ou nervos. A glucose do sangue passa continuamente para o líquido intersticial, para alimentar as células dos tecidos.
A concentração de glucose intersticial segue fielmente a glucose sanguínea, com um atraso de 5-10 minutos, necessário para difusão [5]. Nos períodos de estabilidade, os valores são quase idênticos. As diferenças surgem quando a glicemia muda rapidamente, como após refeições ou durante exercício físico [4]. Esta medição indireta é um compromisso entre precisão, segurança e conforto.
Que diferença existe entre CGM em tempo real e flash monitoring?
O CGM em tempo real transmite automaticamente os valores para o receptor ou telefone a cada 1-5 minutos, sem nenhuma ação da tua parte [6]. Recebes alarmes quando a glicemia ultrapassa os limiares definidos ou muda rapidamente. O flash glucose monitoring necessita da digitalização voluntária do sensor com o telefone ou receptor para ver os valores. Sem digitalização, não tens acesso a dados.
O CGM é ideal para pessoas com hipoglicemias não sentidas ou frequentes, porque o alarme acorda durante a noite quando necessário [6]. O flash monitoring é mais discreto e pode ser suficiente para aqueles com glicemias estáveis e sintomas de aviso preservados. Os sistemas flash mais recentes adicionaram alarmes opcionais para hipoglicemia, aproximando-se da funcionalidade CGM. A escolha depende das tuas necessidades individuais e da disponibilidade no sistema de saúde. O futuro é dos sistemas em tempo real.
Quão precisa é a medição face ao glucómetro?
Os sensores CGM modernos têm uma precisão comparável aos glucómetros, com uma diferença média absoluta relativa (MARD) de 9-11% face à glicemia de laboratório [7]. Em termos práticos, uma glicemia de 150 mg/dl (8,3 mmol/L) pode ser exibida entre 135-165 mg/dl (7,5-9,2 mmol/L). A precisão é ótima no intervalo 70-180 mg/dl (3,9-10 mmol/L) e diminui nos extremos [7]. A maioria dos sensores atuais cumprem os critérios de precisão para decisões terapêuticas (dosagem de insulina), mas não todos. Verifica no folheto do produto!
As diferenças face ao glucómetro não significam necessariamente que o sensor esteja errado. O glucómetro tem a sua própria margem de erro de ±15% [2]. Os valores diferentes refletem também o atraso fisiológico da evolução da concentração de glucose intersticial. Para decisões de rotina, podes ter confiança no sensor [2]. Confirma com o glucómetro apenas em situações críticas, como uma hipoglicemia sintomática, valores extremos ou discordância com o teu estado clínico.
Porque existe atraso face à glicemia capilar?
O atraso de 5-10 minutos surge porque a glucose precisa de difundir do sangue para o líquido intersticial, onde é medida pelo sensor [5]. Este tempo de trânsito é uma constante fisiológica, não uma limitação técnica [8]. Quando a glicemia sanguínea aumenta ou diminui, a mudança no líquido intersticial segue com alguns minutos de atraso. Nos períodos estáveis, a diferença torna-se negligenciável.
O atraso é mais importante quando a glicemia muda rapidamente, como na primeira hora após refeição ou durante exercício físico [8]. O sensor pode mostrar 120 mg/dl (6,7 mmol/L) quando o glucómetro indica já 150 mg/dl (8,3 mmol/L). As setas de tendência compensam este atraso, mostrando a direção de evolução [2]. Aprende a interpretar a tendência, não apenas o valor instantâneo.
Que componentes tem um sistema CGM completo?
Um sistema CGM completo inclui três componentes principais [2]. Temos o sensor propriamente dito, com o filamento que mede a concentração de glucose, o transmissor, que processa e envia wireless os dados e o receptor, que exibe as informações. Em sistemas modernos, o sensor e o transmissor estão fundidos numa única unidade de uso único. O receptor pode ser um dispositivo dedicado, um smartphone, uma bomba de insulina ou um smartwatch compatível [1].
Adicionalmente, precisas do aplicador que insere o sensor sob a pele e da aplicação software para visualização dos dados. Para funcionamento ótimo, verifica a compatibilidade do teu telefone com a aplicação do fabricante, inclusive a versão do sistema operativo. Os consumíveis incluem os sensores de substituição e eventualmente o transmissor, se for reutilizável.
Como transmite o sensor os dados para o receptor?
O sensor transmite os dados wireless usando a tecnologia Bluetooth Low Energy (BLE) ou NFC (Near Field Communication) [9]. O Bluetooth permite a transmissão contínua a distâncias até 6 metros. O NFC necessita da aproximação do receptor ao sensor para digitalização. Na digitalização atualizam-se os valores estimados da glicemia, a tendência e as informações técnicas sobre o estado do sensor.
Para Bluetooth, a transmissão ocorre a intervalos regulares, normalmente a cada 1-5 minutos [9]. Se o receptor se encontrar fora do raio de ação, os dados armazenam-se na memória do sensor e sincronizam-se na reconexão. O consumo de energia é otimizado para a duração de vida do sensor. As interferências são raras, mas podem surgir perto de equipamentos médicos potentes.
Que tecnologia usa o sensor para medição?
A maioria dos sensores CGM usa uma tecnologia eletroquímica, baseada na enzima glucose-oxidase [3]. A enzima catalisa a oxidação da glucose, gerando peróxido de hidrogénio, que produz uma corrente elétrica mensurável. A intensidade da corrente é proporcional à concentração de glucose [3]. Esta é a mesma reação química usada pelos glucómetros clássicos, mas adaptada para medição contínua.
Uma alternativa é a tecnologia da fluorescência, utilizada pelos sistemas implantáveis [3]. Um polímero fluorescente responde à presença de glucose através da modificação da intensidade da luz fluorescente emitida. Esta tecnologia permite sensores com longa duração de vida. A pesquisa continua em relação aos sensores óticos não invasivos, que usam espectroscopia no infravermelho e outros métodos, que ainda não atingiram a precisão necessária para uso clínico.
O sensor pode substituir completamente o glucómetro?
Para a maioria das decisões diárias de gestão, o sensor pode substituir o glucómetro, se tiver aprovação oficial no folheto para isso [2]. As diretrizes atuais aceitam a dosagem de insulina baseada exclusivamente em valores CGM para sensores com precisão validada (MARD abaixo de 10%) [7]. Isto elimina a necessidade de picadas múltiplas diárias e melhora a qualidade de vida. Os sistemas com ciclo fechado funcionam autonomamente, sem verificações com o glucómetro [1].
Contudo, o glucómetro permanece necessário em certas situações especiais, como sintomas de hipoglicemia com valores normais no sensor, suspeita de avaria do sensor, primeiras horas após aplicação de um sensor novo e sempre que os valores no sensor não correspondam com o teu estado clínico [2]. Guarda sempre um glucómetro funcional e testes disponíveis para verificações ocasionais e situações de emergência.
Referências
- Advances in Continuous Glucose Monitoring: Clinical Applications. Endocrinol Metab (Seoul). 2025;40(2):161-173. PubMed
- Using Continuous Glucose Monitoring in Clinical Practice. Clin Diabetes. 2020;38(5):429-438. PubMed
- Glucose biosensors in clinical practice: principles, limits and perspectives of currently used devices. Theranostics. 2022;12(2):493-511. PubMed
- A Tale of Two Compartments: Interstitial Versus Blood Glucose Monitoring. Diabetes Technol Ther. 2009;11(Suppl 1):S-11-S-16. PubMed
- Time Lag of Glucose From Intravascular to Interstitial Compartment in Humans. Diabetes. 2013;62(12):4083-4087. PubMed
- Real-time CGM Is Superior to Flash Glucose Monitoring for Glucose Control in Type 1 Diabetes: The CORRIDA Randomized Controlled Trial. Diabetes Care. 2020;43(11):2744-2750. PubMed
- Significance and Reliability of MARD for the Accuracy of CGM Systems. J Diabetes Sci Technol. 2017;11(1):59-67. PubMed
- Time Delay of CGM Sensors: Relevance, Causes, and Countermeasures. J Diabetes Sci Technol. 2015;9(5):1006-1015. PubMed
- Transformative Advances in Continuous Glucose Monitoring and the Impact of FDA Over-the-Counter Approval on Diabetes Care. Health Sci Rep. 2025;8(4):e70747. PubMed